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Web Novela: Deus Salve O Rei - Capítulo 03



Conheça agora a web novela da VogueHabbo, escrita por Bibi Patriarca, a novela será postada toda Quarta às 14h00. Patrocinado por: Prohabbo, Banco Central Habbo & Dior Top Models.





REINO DE ARTENA


Catarina estava no centro do labirinto, sentada em seu banco preferido próximo a fonte de água, lendo um velho livro que trouxera da Lúngria, A Guerra dos Reis de Prata, que contava a história de uma das maiores guerras que se abateu sobre a Cália, entre os reis rivais dos reinos de Dania e de Nícia, um de seus livros preferidos, quando escutou ao longe alguém chamar seu nome.


Levantou-se rapidamente, ouviu mais uma vez e reconheceu a voz de Lucíola, então caminhou ao encontro da voz da criada, ela não se perdia naquele labirinto desde que tinha idade para se lembrar, era como se sempre o conhecesse, diferente de sua dama de companhia, que sempre ficava apreensiva ao entrar no labirinto, pois havia se perdido inúmeras vezes.


- Estou aqui. – respondeu Catarina ao encontrá-la na entrada.


- Seu pai convocou sua presença Alteza, imediatamente. – comentou esbaforida. – É urgente!


- Do que se trata? – perguntou enquanto apressava o passo em direção ao castelo.


- Não me informaram, mas parece ser algo a respeito do príncipe Afonso. – respondeu Lucíola, enquanto tentava acompanhar os passos rápidos e longos de Catarina. – O rei a aguarda no salão real.


Catarina se encaminhou o mais depressa que pôde, e ao chegar na sala do trono encontrou o pai em um debate sério com Demétrio.


"Eu quero cada centímetro daquela floresta revistada, cada canto, cada pedra" entreouviu seu pai dizendo ao chegar. Ao vê-la ele parou de falar.


- Meu pai, o que aconteceu?


- É Afonso minha querida, um mensageiro chegou, o príncipe foi atacado em seu caminho pela Floresta, um bando de foras da lei, o chefe de sua guarda pessoal retornou à Montemor com a notícia, estava ferido, mas o príncipe está desaparecido.


- Pelos deuses, como isso pode ter acontecido? Ele não tinha uma escolta? – perguntou ela.


- Sim, mas ao que parece os fora da lei estavam em maior número e os encurralaram, houve luta, e o príncipe não foi mais visto. – respondeu Demétrio.


Catarina não sabia o que pensar, por um lado sentia pelo menino que conhecera, o rapaz muito provavelmente estava morto agora, ela já tinha escutado inúmeras notícias como aquela para saber disso, não que ela se atrevesse a dizer isso em voz alta, seu pai com toda a certeza tinha esperanças de encontrá-lo com vida, mas por outro lado, bom, por outro lado sentia-se livre, livre como se sentira apenas poucas vezes na vida. Sem Afonso o controle de seu destino voltava a ser seu.


- Ele deve ter se escondido em algum lugar pela Floresta, talvez ferido e se escondendo dos fora da lei. – sugeriu Catarina.


- Sim, pensamos nessa possibilidade, já enviei uma equipe de buscas para procurá-lo por toda a região, e o mesmo fez Crisélia. – respondeu Augusto. – Logo ele será encontrado, não tenho dúvidas.


- Que os deuses sejam bons. – disse Catarina.


- Que os deuses sejam bons. – respondeu Demétrio em eco.


Ele saiu da sala, e Augusto junto com ele, dando um último sorriso confortador para a filha, e deixando Catarina sozinha na imensa e deserta sala do trono.


Os deuses nunca são bons, pensou Catarina. Os deuses, em toda sua onipotência e plenitude, pouco se importavam ou interferiam nas vidas dos pobres mortais. Um homem sozinho e ferido em uma Floresta tão grande como a de Artena, contra um bando de foras da lei, as chances eram mínimas de Afonso ter sobrevivido. Agora, mais do que tudo, era a hora de pensar em novas estratégias para o futuro.







Os dias correram devagar, mas correram, e um mês havia se passado desde o desaparecimento do príncipe. A cada nova informação, a cada perímetro patrulhado, as esperanças do povo de encontrar o príncipe diminuíam. Catarina percebia uma tristeza se abater pelo castelo, e Lucíola dizia que nas vilas as pessoas acendiam velas para Riemis, o deus dos viajantes, para ajudar nas estradas e nos recantos da floresta na procura por Afonso.


Até mesmo seu pai, sempre tão otimista, estava abatido e apático, os últimos resquícios de esperança o deixavam, dia após dia sem nenhuma novidade, era cada vez mais certo que o príncipe deveria estar morto.


Eles estavam na mesa de jantar, apenas o som dos talheres se tocando eram ouvidos naquela ampla sala, seu pai tinha o olhar longe, perdido em pensamentos. Catarina temia tocar no assunto, e falar sobre qualquer outra coisa pareceria trivial neste momento, então se manteve em silêncio.


As portas se abriram, Demétrio entrou, trazia em suas mãos uma carta com o selo de Montemor.


- Um mensageiro acabou de trazer Majestade, possui o selo real. – informou Demétrio.


- Crisélia. – disse Augusto enquanto limpava as mãos e pegava o envelope, quebrando o selo com as mãos levemente trêmulas. – Deve ser algo da extrema importância, para enviar um mensageiro com tanta urgência.


Ele então leu todo o conteúdo da carta, seus olhos passavam e repassavam o mesmo ponto, e seu rosto se tornou sombrio. Aquela carta não trazia boas notícias.


"Mensageiro à luz do dia, uma notícia boa trará, mensageiro à luz da noite só tristeza carregará". Esse ditado, conhecido por todos na Cália e que ela repetia desde criança, nunca tinha sido tão real.


- Então meu pai? O que diz? – perguntou ela impaciente.


- Afonso foi oficialmente dado como morto, as patrulhas de busca estão retornando à Montemor, Crisélia informa que haverá uma cerimônia fúnebre simbólica, visto que não encontraram o corpo.


Um silêncio pesado e palpável se abateu sobre eles, o significado daquelas palavras, a importância delas atingindo a todos. Foi Catarina a primeira a falar.


- Pobre rainha Crisélia, eu sinto muito, perder o neto desta forma deve ser muito difícil. Que os deuses a confortem. – disse. Era o certo a ser dito, mas não deixava de ser um comentário sincero, Catarina tinha grande apreço e admiração pela idosa senhora.


- Será muito difícil para todo o povo de Montemor também, perderam seu príncipe, o mais feroz guerreiro e herdeiro do trono. – comentou Demétrio.


Seu pai ficou em silêncio, ela conseguia ver a dor em seus olhos, uma dor que não imaginava que veria, era intensa, lágrimas brotaram, e o rei abaixou a cabeça.


- Eu o tinha como um filho, sempre pude contar com seus conselhos quando precisei, um rapaz honrado, justo, com o coração mais nobre que já conheci. Que perda terrível para toda a Cália.


Catarina não pode deixar de se ressentir ao ouvir aquelas palavras. Seu pai tinha Afonso como um filho, buscara seus conselhos enquanto a enviara para longe, ela que era sua filha, seu sangue e sua herdeira, não Afonso, e de repente tudo o que sentiu foi raiva. Ela sabia do carinho de seu pai por Afonso, mas vê-lo dirigir essas palavras a ele quando para ela seu pai nunca tinha direcionado nenhum elogio desta forma, fez brotar nela inveja e ressentimento.


- Agora Rodolfo irá assumir o trono então? Ele será nomeado herdeiro certo? – perguntou Catarina, sem conseguir se conter.


- Sim, imagino que futuramente a rainha Crisélia fará uma cerimônia em que nomeará Rodolfo como o herdeiro do trono. – respondeu Demétrio.


- Isso não é hora para pensar em tais coisas Catarina! – exclamou Augusto para ela, a repreendendo. – Afonso não foi nem enterrado e você já pensa em quem irá sucedê-lo no trono.


- Ele não foi enterrado e nem será, não encontraram o corpo. – respondeu ela de modo cruel. - E se Afonso está morto, é de extrema importância avaliar quem irá sucedê-lo meu pai, é chegada a hora de Artena repensar suas alianças! Exija mais do acordo com Montemor, forje novas alianças com reinos que tragam mais benefícios para nós!


- Cale-se! – gritou Augusto. – Cale-se agora! Não quero ouvir nem mais uma palavra!

- Você se recusa a pensar grande, a desejar mais para o seu próprio reino! – exclamou ela em resposta. – Essa é a hora de mudar o rumo da história de Artena! – ela bateu na mesa, a irritação visível em seu rosto.


Queria que seu pai entendesse, que tivesse um vislumbre da visão dela para o futuro, mas ao ver que o rosto de seu pai se transformar em uma máscara dura e fria, sentiu ter ido longe demais em sua impetuosidade, não era a hora para debater esse assunto, a dor era recente para Augusto. Porém, tinha certeza que o momento de debater essas questões jamais chegaria.


Catarina encarou o olhar do pai, sentia vontade de gritar com ele de volta mais uma vez, mas se conteve. Augusto levantou-se abruptamente da mesa e saiu caminhando pesadamente, batendo a porta com força ao sair. Demétrio saiu logo atrás, deixando Catarina sozinha na mesa de jantar, como de costume.


Não adianta, pensou. Ela sabia que seu pai jamais pensaria como ela, jamais partilharia de suas estratégias, ele era bom e leal demais para seu próprio bem, ele deveria, neste momento crítico, pensar em Artena, avaliar talvez um novo acordo com outro reino ou conseguir algo além do parco minério de ferro que Montemor lhe fornecia, mas não, seu pai não era assim, muito provavelmente ele iria perpetuar esse acordo com Montemor, continuar permitindo a construção do aqueduto nas terras de Artena, e prestar todo o auxílio que Crisélia solicitasse. Artena nunca seria nada além do que já era enquanto seu pai a governasse.


Ela tomou um pouco mais de vinho, e então levando a taça consigo se levantou, saindo em direção ao seu quarto. Estava cansada, agora que finalmente as buscas haviam terminado ela tinha muito em que pensar, começando por arrumar sua mala, pois tinha uma cerimônia fúnebre simbólica para comparecer.





REINO DE MONTEMOR


- Onde ele está? – perguntou Crisélia, pela décima quarta vez.


- Ele está chegando Majestade. – Petrônio respondeu. – Ele se atrasou por conta de um, um imprevisto na cidade, mas já está a caminho, a qualquer momento estará aqui, garanto.


Impaciente, Crisélia andava pelo salão. Rodolfo como sempre irresponsável, ele sempre fora um menino voluntarioso, imprudente e extremante egocêntrico, mas agora era a tarefa dela deixá-lo apto para assumir o trono.


O tempo do luto se fora, embora em seu coração ela sabia que ele nunca passaria, a perda de seu neto ardia em seu peito, doía ao menor pensamento, e seria assim pelos anos que lhe restassem.


Treze dias haviam se passado desde a cerimônia fúnebre, e agora passado o luto oficial ela enfim iria realizar a cerimônia em que apresentaria Rodolfo como herdeiro, bem como seria a realização do casamento dele com a princesa de Alcaluz. Estava marcada para dali quinze dias, logo os primeiros convidados começariam a aparecer.


A porta se abriu, revelando seu neto, que caminhava afobado até chegar diante do trono. Petrônio aproveitou a brecha para se esgueirar de fininho da sala, deixando Crisélia e o neto a sós.


- Perdão pelo atraso minha avó, eu tive uns contratempos em uma taverna e...bem, isso não importa, estou aqui. – informou Rodolfo.


- Sim, vejo que você está aqui. Atrasado. – respondeu Crisélia. – Um rei deve sempre ser pontual, um rei é diligente, e acima de tudo, um rei sempre honra seus compromissos.





-Bom, eu não sou o rei ainda. – disse Rodolfo com uma risadinha.


- E não merece ser com esse tipo de comportamento.


- Perdão, você está certa, prometo me empenhar em melhorar meu comportamento.


Lá vinha ele com essa frase pronta novamente, nos últimos dias sempre que ela lhe fazia uma crítica ou reprimenda ele respondia com esse mesmo discurso ensaiado, e agora isso estava começando a irritá-la.


- Tenho uma notícia para você. – ao dizer isso viu o rosto dele se animar um pouco. – O dote de sua noiva acabou de chegar. O tio dela, Heráclito, me enviou uma carta informando que eles devem chegar até o final da semana, e ficarão hospedados conosco até a data da cerimônia.


- Mas que...maravilha. – disse Rodolfo, com desânimo. – Então, todos os cem cavalos chegaram? Todos grandes corcéis de batalha?


- Sim, e pelo que vi são belos garanhões, são muito valiosos e serão de extrema ajuda ao nosso exército. – respondeu Crisélia.


- Imagino que sim. – batendo as mãos em sinal de que estava tudo concluído, ele fez sinal de se dirigir a saída. – Bom, se me der licença cara avó, quero verificar esses animais fabulosos.


- Não tão rápido. – ele parou e a encarou. – Sua noiva. Você não parece muito animado com esse casamento.


- Impressão sua querida avó, eu estou animado, demasiado animado com esse casamento. – ele respondeu, sem sorrir. – Tenho apenas certa apreensão quanto ao fato de não estarmos concretizando a união com Artena.


Crisélia observou atentamente o neto, sabia que o que ele acabara de dizer era algo sensato, algo que ela própria se preocupara após todos aqueles acontecimentos, mas também sabia que Rodolfo em nenhum momento estava pensando em Montemor ou na aliança dos reinos, ele estava pensando era em sua aliança com a princesa Catarina. Ela realmente era de uma beleza estonteante, uma das moças mais belas que já conhecera, e viu que seu neto partilhava deste pensamento, durante toda a cerimônia fúnebre ela notou Rodolfo observando a filha de Augusto, e ao final ficou desapontado quando nem ela nem o pai pernoitaram no castelo.


- Sim, isso é algo que também me preocupa. – respondeu ela. – Mas infelizmente isso está além do meu alcance, você e Lucrécia estão prometidos há muitos anos, eu selei o compromisso com a rainha Margot, essa aliança não pode ser desfeita.


- Ora poderia ser desfeita, bastava a senhora desfazer, sabe, desfazendo. - Rodolfo disse quase implorando. – Do meu ponto de vista a união com Artena é mais importante.


- Ambas as uniões eram importantes, Alcaluz é o reino mais rico de toda a Cália, possui grande influência no Conselho, tem alianças com reinos como Senciera e Castelotes, não podemos quebrar esse acordo com eles. Isso está fora de cogitação, o acordo está selado, e não será desfeito.


- Mas e quanto a água de Artena? – perguntou Rodolfo com um resquício de esperança.


- A questão da água eu irei tratar com Augusto, reformularemos as condições do tratado se for necessário, é o que podemos fazer. Agora venha, vamos dar uma olhada no corsel que foi reservado à você. – chamou ela, animando-o.


Ao chegar ao pátio Rodolfo realmente se animou, aqueles grandes corcéis eram de fato uma visão magnífica, e seu neto logo saiu cavalgando em seu corcel negro, feliz e animado com tão grandioso animal.


Ele sempre fora assim, um menino voluntarioso e um tanto mimado, que se chateava com facilidade, mas bastava lhe dar algum presente e ele logo se animava, como se nada tivesse acontecido, e embora agora estivesse mais velho, com seus vinte anos completos, algumas vezes ainda era aquela criança.


Crisélia permaneceu mais um pouco ali no pátio, observando enquanto os belos animais eram levados para os estábulos, quando um homem adentrou vindo da cidade, os portões ainda estavam abertos e na movimentação com os animais, nenhum guarda o parou. Ele montava um velho pangaré, e seu traje era de plebeu, usava trajes simples, desgastados e sujos pelo tempo, um manto corroído nas pontas pelas traças e um grosso capuz cobrindo a cabeça. Andava curvado, como se temesse algo, ou estivesse envergonhado, se aproximou mais e foi quando os guardas notaram sua presença, imediatamente o cercaram com lanças e ordenaram que se identificasse. O homem levantou as mãos em sinal de rendição, e então, num gesto rápido, abaixou o capuz, e um suspiro de surpresa ficou suspenso no ar.


- Eu sou Afonso de Monferrato, príncipe de Montemor. – disse seu neto.





REINO DE MONTEMOR


Horas haviam se passado desde que Afonso regressara, mas tudo ainda parecia irreal, tudo era estranho, observando o castelo, os serviçais, os soldados e tudo mais naquele lugar, parecia que tinha sido em outra vida.


Reencontrar sua avó, seu irmão e seus amigos tinha sido uma grande alegria. Crisélia ainda carregava nos olhos vermelhos os resquícios das lágrimas que deixou cair livremente ao ver o neto retornando dos mortos. Ele sentia por isso, sabia que ela devia ter sofrido demais com a ausência dele, o funeral, o luto, ela vivera tudo aquilo.


Seu irmão também chorou ao vê-lo com vida, ao chegar cavalgando em um belo corcel negro, saltou e correu ao seu encontro para abraçá-lo numa euforia e emoção que nunca vira em sua vida. Cássio e os demais soldados também festejaram sua volta, chamando-o de Afonso, o Renascido.


Agora, se preparando para o jantar, enquanto vestia uma fina veste digna de um príncipe, de veludo negro com botões de ouro, sentia seu estômago revirar. Era enfim chegada a hora, não podia esperar mais, ele tinha de revelar a sua avó sobre o motivo de sua demora em voltar, e como tudo tinha mudado para ele, tinha que contar sobre Amália.


Quando acordou, confuso e fraco em um lugar desconhecido, a primeira coisa que viu, e que o acalmou, foi a visão dela, sorrindo gentilmente para ele. Ao entender o que tinha acontecido, decidiu não revelar quem era, e Amália e sua família o acolheram, e ela cuidou dele por todas essas semanas, tratando de seu ferimento, alimentando-o, e ele sentiu algo crescer dentro dele. Ela era bonita, gentil, e também geniosa, e antes que se desse conta, Afonso estava apaixonado. Uma paixão como ele nunca tinha sentido antes na vida.


Mas sabia que teria de regressar, e ao chegar esse momento, decidiu revelar a verdade a ela, em segredo, e num ato de desespero, de amor, prometeu que voltaria por ela, que jamais iria abandoná-la. Era verdade, ele a amava profundamente, não conseguia imaginar sua vida sem ela, então voltou decidido a contar tudo a sua avó, e pedir a benção dela para se casar com Amália. Ele não abriria mão dela, jamais.


Ao chegar na sala de jantar uma mesa ampla já estava disposta, cheia dos mais variados pratos, ensopado de carneiro, torta de lula, morangos caramelizados, e tudo mais, um grande banquete.


Na mesa se encontravam sua avó, Crisélia, na cabeceira, o lugar da rainha, no lado esquerdo Rodolfo já beliscava alguns pedaços do faisão assado, e ao lado dele estava Bernardo. Ao entrar todos o olharam, sua avó sorria, mas em Bernardo ele notou uma sombra de desapontamento, algo sutil, que logo foi substituído por um sorriso um tanto forçado.


- Um brinde à Afonso, o Renascido! – exclamou Bernardo, ao que todos juntaram suas taças a dele, em um brinde.


Afonso tomou seu lugar, do lado direito da avó como cabia agora a ele de novo, o herdeiro do trono.


- Meu neto, conseguiu descansar da viagem? – perguntou Crisélia, enquanto fazia sinal para servirem os pratos.


- Sim, depois de todas aquelas horas de viagem, um banho e algumas horas de sono me fizeram muito bem. – respondeu.


- Um banho principalmente, certo Afonso? Soube que viveu entre plebeus, realmente era necessário um bom banho para tirar toda a sujeira. Já ouvi boatos que eles deixam porcos viverem com eles dentro de suas casas, e que no inverno se cobrem com lama para aquecê-los à noite. – comentou Bernardo.


- Você não os conhece então meu primo. – respondeu Afonso entredentes, tentando conter a raiva que sentiu ao ouvi-lo falar daquele jeito da família de Amália. – Se conhecesse saberia que esses boatos não são verdadeiros, a casa deles inclusive era bem limpa e a comida de excelente qualidade.


- Tenho certeza de que eram perfeitamente aceitáveis, e fico feliz que te trataram com tamanha cortesia, visto que omitiu sua verdadeira identidade – disse Crisélia. – Eles salvaram sua vida, e devem ser recompensados por isso, irei conversar com Augusto para lhes dar uma recompensa pelo que fizeram, afinal eles são de Artena.


Afonso apenas sorriu em resposta, sabia que o pai de Amália aceitaria a recompensa de bom grado, mas duvidava que a filha concordasse, ela era orgulhosa, e em alguns momentos, orgulhosa demais para seu próprio bem.


- Conhecemos sua noiva Afonsinho, ela esteve presente em seu funeral. – comentou Bernardo após algum tempo. – E eu retiro o que te disse da última vez que nos vimos, ela é realmente belíssima. A mulher mais bela que já vi em toda a minha vida. – ele sorria, e Afonso via o desejo em suas palavras.


- Sim, ela era realmente uma moça muito bela, e também educada e gentil, como uma princesa como ela deve ser. – confirmou Crisélia. – Augusto tem todos os motivos para se orgulhar.


- Ela não era a mais linda flor que você já viu Rodolfo? – perguntou Bernardo, ao perceber o silêncio de Afonso.


- Ah sim, era mesmo, uma linda flor, digo, uma linda moça. Era mesmo muito bonita. – respondeu Rodolfo encabulado.


- Você deve ter reparado na beleza dela até mais do que eu, visto que não saiu do lado dela todo o tempo em que ela esteve aqui no castelo. – continuou Bernardo.


- Eu pedi a Rodolfo que fizesse companhia a moça Bernardo. – interrompeu Crisélia. – Ela como noiva de Afonso e filha de nosso maior aliado, merecia uma atenção especial de nossa parte.


- Imagino que sim. – disse Bernardo, com um meio sorriso nos lábios.


- Conte-nos novamente irmão, conte-nos como foi a emboscada na Floresta. – sugeriu Rodolfo, mudando o rumo da conversa.


- Todos já ouvimos essa história. – protestou Bernardo.


Então Afonso começou a contar toda a história novamente, pelo simples prazer de contrariar Bernardo. A emboscada na Floresta de Artena, a batalha, a morte de toda sua escolta, como ele cobrira a retaguarda para que Cássio pudesse escapar, e como fora atingido depois, ficando para trás, se escondendo dos fora da lei até desmaiar em um grande descampado.


- Foi uma sorte essa plebeia te encontrar então Afonsinho, não sei se sozinho você teria sobrevivido. – disse Bernardo com um sorriso malicioso. – Acho que nunca saberemos.


Rodolfo então se levantou, acenou para a avó e o irmão e bebeu um grande gole de sua taça de vinho.


- Há uma grande festa na cidade em comemoração ao seu retorno meu irmão, sabia? – bebeu mais um gole. – Ah sim, todos muito felizes com seu retorno, eu também estou, claro, então se me der licença, eu irei celebrar também, alguns amigos se reuniram no Condado de Bravia, e eu temo que minha presença é solicitada, com licença. – disse, e saiu a passos rápidos.


Bernardo saiu logo atrás, mas não sem antes lançar a Afonso um olhar sardônico.


Permaneceram então apenas Afonso e a avó, que também fazia menção de se retirar.


- Minha avó, se me permite, posso ter uma reunião particular com a senhora? – perguntou Afonso.


- Ora, claro. – respondeu ela, visivelmente surpresa. – Mas o que é tão importante que não poderia ser dito durante o jantar?


- É algo particular, algo que quero tratar apenas com a senhora.


- Bom, se é o caso, vamos para a sala de reuniões, lá teremos mais privacidade. – disse Crisélia enquanto se apoiou no braço do neto.


Ao chegar na sala de reuniões, portas fechadas, Afonso decidiu ser rápido e direto, sem meias palavras e sem rodeios, estava cansado de guardar esse segredo com ele.


- Eu me apaixonei minha avó. – disse Afonso, as palavras cuspidas de sua boca, ele tentou dizer algo mais, porém não conseguiu.


- Entendo. – respondeu Crisélia, e após uma pausa, concluiu. – Se apaixonou pela plebeia, aquela que cuidou de você enquanto esteve ferido.


- Bom, sim, por ela. – confirmou ele, surpreso por sua avó ter associado tudo tão rápido. – E o nome dela é Amália.


- Certo, Amália, é um belo nome. – ela olhou fundo em seus olhos. – Ora, isso é realmente complicado, mas penso que pode ser arranjado.


- Como assim? – Afonso estava confuso, imaginava outra reação de sua avó. – O que a senhora quer dizer com "arranjado"?


- O seu casamento com Catarina só iria acontecer no fim do verão de qualquer forma, você tem toda a liberdade para viver esse romance até lá, em segredo claro, nada à vista de todos, mas poderá visitá-la com frequência imagino eu.


- Visitá-la? – perguntou incrédulo.


- Sim, e quando se casar com Catarina, bom nem todas as esposas aceitam amantes assim de bom grado, ainda mais as recém-casadas, então terá que manter segredo. Mas já vi algumas mulheres aceitarem as amantes dos maridos, desde que permaneçam bem longe de sua vista e sem ser escancarado para não gerar comentários.


- Minha avó, a senhora não entendeu, eu amo Amália, quero me casar com ela. – afirmou, a voz saiu falhada, traindo a segurança que tinha tentado transparecer.


Crisélia riu, não um riso maldoso, debochado, mas uma risada sincera, como quem acha que escuta uma brincadeira, algo sem importância. Ao notar a seriedade no rosto do neto, todo o riso morreu em seus lábios.


- Você não pode estar falando sério. – afirmou ela. – Se casar com uma plebeia, mas isso é inconcebível, absolutamente inconcebível.


- Você nem a conhece! – exclamou ele. – Ela é boa, amável e...


- Ela pode ter todas as qualidades do mundo, isso não muda o fato de que é uma plebeia, uma camponesa, ela nunca será a rainha de um reino.


- Eu a amo, e não irei abrir mão dela.


- Você não precisa abrir mão dela, a maioria dos reis possuem amantes, você não seria o primeiro. Mas casamento? Não, isso eu não permitirei. – argumentou ela, a cabeça balançando de forma enfática. – Você se casará com Catarina, isso não está em discussão.


- Sim está, eu não quero me casar com uma mulher que nem conheço, eu me casarei com Amália. – afirmou com firmeza.





Crisélia se aproximou do neto, segurando o rosto dele em suas mãos finas e frágeis pela idade avançada, e sorriu, um sorriso triste.


- Eu lamento meu neto, mas isso não será possível. O herdeiro de um reino jamais poderia se casar com uma plebeia, o Conselho não reconheceria essa união, nenhum rei e nenhum reino, em toda a Cália, reconheceria essa união. Eu sinto muito.


Afonso viu a dor nos olhos da avó, e sabia que ela tinha sido sincera, que realmente sentia por vê-lo sofrer dessa maneira, mas o que ela disse era a verdade, ele sabia disso, sempre soube na verdade, desde o momento em que partiu da casa de Amália, sabia o que precisaria fazer.


- Então eu deixarei de ser o príncipe herdeiro de Montemor. – afirmou ele. – Eu renunciarei ao trono.


Neste momento uma sombra passou no rosto de sua avó, desapontamento, decepção, e incredulidade era o que ele via agora. Ela se afastou dele, como se ele não fosse mais digno de seu toque, aquilo atingiu-o duramente.


- Você não faria isso, renunciar aquilo que é seu por direito, renunciar ao que está intrincado no amago do seu ser, você nasceu para ser rei Afonso, nasceu para reinar.


- Talvez, mas eu renunciarei se esse for o preço que tenho de pagar para ficar com ela.


- Então você é um tolo. – disse ela, e agora ele podia sentir o desprezo em suas palavras.


- Sou um tolo por lutar pela mulher que amo? – perguntou ele, tentando segurar as lágrimas que agora insistiam em cair.


- Você é muito jovem, não conhece nada da vida, nada do amor. A paixão é algo forte e também muito bonito, mas paixão não é amor. O amor não tira a clareza de suas ideias, a paixão faz isso.


- Minha avó, entenda... – começou ele.


- Não, me entenda você, esse fogo da paixão diminuirá, esse fervor ardente é passageiro, o amor é outra coisa meu filho, uma decisão imprudente dessas baseada em um sentimento volúvel como a paixão, que chega e se dissipa durante um verão, irá acarretar consequências para todo o reino. Pense no seu povo! – exclamou ela.


- Rodolfo será um bom rei, ele pode ter dificuldades mas terá a senhora para auxiliá-lo, ele se sairá bem eu tenho certeza. – respondeu. – Eu sempre pensei no povo, mas agora, neste momento, eu quero ser feliz, e minha felicidade está ao lado dela. E não irei abrir mão disso. Me perdoe.


Crisélia se manteve firme, encarou o neto por longos minutos, por fim suspirou cansada, lançando a ele um olhar de desgosto e tristeza.


- Bom, se é sua palavra final, eu não posso obrigá-lo a mais nada. Achei que tinha te educado para ser um grande rei, um grande monarca, mas vejo que falhei, falhei de todas as formas que poderia falhar. – ela se dirigiu a porta, mas de costas para ele concluiu. – Irei organizar uma Assembleia com o povo da cidade e você fará o anúncio oficial, mas tenho uma última ordem para te dar. – ela fez uma pausa e respirou profundamente. – Você irá até Artena e pessoalmente pedirá perdão ao rei Augusto e a princesa Catarina.


- Sim, eu farei isso, prometo. - respondeu ele, lágrimas escorriam silenciosamente por seu rosto enquanto ele curvava a cabeça para a rainha de Montemor.


Crisélia saiu da sala, deixando Afonso para trás, sozinho e com o peso de uma enorme culpa em seus ombros. Ele sabia que Rodolfo não estava preparado para assumir a coroa, mas com os ensinamentos e conselhos de sua avó, Afonso sabia que ele poderia ser um bom governante, ou pelo menos era nisso que tentava acreditar. A dúvida pairava sobre sua cabeça, agora que finalmente tivera a coragem de tomar aquela decisão se perguntava se havia feito a coisa certa, o impacto de sua escolha afetaria todo o reino, e além de Montemor afetaria também Artena.


Com o tempo as coisas irão se estabilizar, pensou. Acreditava nisso, tinha que acreditar nisso. Augusto era um rei bondoso, com toda a certeza manteria o tratado sobre a águaque destinava a Montemor, e bem, Catarina, ela se casaria com outro homem, umnobre de Artena ou um príncipe de outro reino da Cália. Ele sequer areencontrara, e iria revê-la apenas agora, quando iria romper a aliança dematrimônio entre os reinos, era curioso como as coisas tinham acontecido. Mascom o tempo a ofensa que ele iria fazer a ela e a Artena seria esquecida, e avida seguiria seu curso.


 

Novela by: Bibi Patriarca Exibida em 2019 Adaptação: Bibi Patriarca Original: Grupo Globo Ré exibição: VogueHabbo - 2021 Patrocinadores: Prohabbo, Banco Central Habbo& Dior Top Models.

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